O islamismo, a manifestação religiosa mais moderna do tronco judaico-cristão, surgiu como uma versão árabe do judaísmo, recontando a história da revelação da Verdade divina ao homem através de Abraão, do ponto de vista de sua descendência árabe, ou seja, proveniente de seu filho bastardo Ismael. De acordo com a religião islâmica, Maomé é o último mensageiro de Deus e o maior dos profetas. O Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos, nega a ligação espiritual entre Abraão e os judeus e Maomé afirma que Abraão é o patriarca do Islã, mas não de Israel, porque ele “se rendeu a Alá”. (1) A Bíblia, entretanto, demonstra claramente o oposto, através da genealogia apresentada por Mateus, que Jesus é descendente de Isaque, o filho legítimo de Abraão.
Embora partilhe os mesmos princípios básicos de fé do judaísmo, e tenha como um de seus fundamentos o de ser a última revelação de Deus ao homem; considerando ser Maomé, o seu fundador, o “selo dos profetas” e os seus ensinamentos os únicos de caráter universal; o etos do islamismo não é o mesmo do judaísmo. O fim último do islamismo é ensinar o Islã, ou a adoração e a submissão do homem a um único Deus, na forma da observância de seus estatutos, conforme descritos no Alcorão e nas Sunas, que são relatos tradicionais sobre a vida de Maomé. Os ensinamentos de Allah (a palavra árabe para Deus) estão contidos no Alcorão ou Corão (Qur’an, ou “recitação”). Os muçulmanos acreditam que Maomé recebeu estes ensinamentos de Allah por intermédio do anjo Gabriel (Jibreel) através de revelações que ocorreram entre 610 e 632 d.C.. O Corão é considerado sagrado apenas em sua versão original, em árabe, embora já esteja traduzido em vários idiomas. Além do Alcorão, as crenças e práticas do islamismo baseiam-se na literatura Hadith, que compõem as Sunas, as quais para os muçulmanos esclarecem e comentam os ensinamentos do profeta, assim como o Talmud hebraico em relação à Torah.
O islamismo reconhece a legitimidade da Torah hebraica, embora afirme que a perda dos manuscritos originais gerou muitas distorções na interpretação do seu conteúdo. O Novo Testamento cristão, entretanto não é reconhecido como fonte escritural espiritual legítima, pois segundo os estudiosos islâmicos, os manuscritos nos quais foram baseados os seus textos e a origem dos testemunhos ali contidos não são confiáveis. Segundo o islamismo, o Corão seria o verdadeiro fundamento da Nova Aliança celebrada entre Deus e o homem; por haver sido revelado a um único profeta, por ser baseado em seus textos originais e por ser escrito em uma linguagem atual.
Poucos conhecem entretanto a história do islamismo. Poucas pessoas sabem, por exemplo, que Allah era originalmente o nome do deus da Lua, uma das várias divindades cultuadas pelos povos árabes antes do nascimento de Maomé, que depois veio a se tornar o nome genérico de Deus nas culturas do oriente médio. O símbolo da lua crescente encontrado nas mesquitas, minaretes e nas bandeiras de alguns emirados árabes no início de xéculo XX, é um resquício do politeísmo que caracterizava a vida religiosa desses povos. (2)
Quando Maomé foi viver com seu tio, chefe do clã Hachemita, Meca era uma cidade-estado no deserto, um grande centro comercial e religioso. Maomé era sensível aos frequentes conflitos entre as tribos, que marcavam a vida nômade do seu povo, como também se ressentia do intenso politeísmo e animismo em que estavam espiritualmente mergulhados.
Sentia-se indignado com a cultura materialista que dominava a cidade, e insatisfeito com a forma como órfãos, pobres e viúvas eram excluídos da sociedade. Reputado por sua sabedoria e por sua capacidade de arbitramento de disputas entre as lideranças tribais, era então chamado de Al-Ameen (“o confiável”) devido ao seu senso de justiça demonstrado nestas intermediações.
Maomé fazia parte de uma facção religiosa existente em Meca que, inspirados pelos princípios judaico-cristãos, distanciavam-se dos cultos pagãos ali praticados, denominando-se hunafa, termo derivado do siríaco hanephe, que significa gentio ou pagão (3). Os hunafa declaravam-se crentes no Deus único de Abraão.
Maomé conhecia a história do povo judeu, conhecia também o Deus de Abraão e percebeu como a revelação desse Deus aos judeus trouxera uma profunda coesão e sentimento de unidade étnica entre eles. Assim como entre os judeus, a religião era o aspecto cultural mais significativo para a vida das tribos árabes daquele tempo. Maomé viu portanto que este seria o caminho para a unificação e o desenvolvimento social do seu povo. Entretanto, não via a possibilidade de adotar nem o judaísmo nem o cristianismo como religião de sua nação, devido a desentendimentos que teve com os judeus e também devido aos conflitos doutrinários existentes entre essas religiões.
Maomé elaborou assim, através do Corão; uma transposição cultural do judaísmo - e, em certa extensão, também do cristianismo - para a sua gente; tendo como meta instaurar entre eles o culto a um único Deus, e estabelecer o fundamento cultural para o surgimento de uma nação árabe. (3) Maomé foi portanto um grande líder social e, embora não soubesse ler ou escrever, era um talentoso poeta. O Corão é na verdade uma magnífica obra poética religiosa de tradição oral, assim como o épico hindu Mahabharata. Maomé certamente foi inspirado a criar esta obra, mas essa inspiração não poderia jamais ser considerada uma revelação divina, pois o Deus a quem ele se refere, não é o mesmo Deus bíblico.
O próprio Maomé não tinha a princípio a certeza de ser um profeta, e tampouco da fonte de suas revelações. Conforme afirma Daniel Shayesteh, os poetas árabes acreditavam que somente poderiam ser considerados autênticos poetas aqueles que fossem possuídos por um jinn ou djnn, um ser espiritual, que os compelia a recitar os versos por eles inspirados. A natureza moral destes espíritos não era importante, contanto que ajudassem a tribo a crescer e prosperar. A inspiração espiritual de Maomé é altamente controvertida, como atestam os chamados “Versos Satânicos” (53:19-20) do Corão, em que são exaltados os deuses pagãos al-Lott, al-Uzza e Manat. Maomé depois afirmou que esses versos haviam sido inspirados por Satanás, com a permissão de Allah, com o fim de confundir os homens de coração endurecido. Maomé veio depois a remover essa revelação, segundo ele também por determinação de Allah. (2)
Maomé foi persuadido quanto à legitimidade e nobreza de seu ministério por Khadijah, sua primeira esposa, e pelo tio dela, Nofel. Khadijah, uma próspera comerciante e poetisa, foi sempre o maior apoio de Maomé em seu ministério, e provavelmente ele não teria sido bem sucedido sem ela.
Não se pode avaliar entretanto até onde o Corão foi inspirado espiritualmente e até onde ele é fruto das convicções pessoais de Maomé e de influências judaico-cristãs. A prova da influência das Escrituras judaico-cristãs na produção do Corão é o fato de que os seus versos (Ayat), “ao contrário da poesia altamente refinada dos árabes pré-islâmicos, apresenta em sua estrutura rimas e ritmos distintos, mais semelhantes aos enunciados proféticos, marcados por descontinuidades inspiradas, encontrada tipicamente nas escrituras sagradas do judaísmo e do cristianismo”. (5)
Alguns rituais islâmicos e passagens do Corão têm forte influência do zoroastrismo, religião que Maomé veio a conhecer através de um estudioso chamado Salman Farsi. Maomé se inspirou também certamente na vida de Zoroastro (ou Zaratustra) e em sua luta pela extinção do politeísmo entre os povos da antiga Ásia Central. (2)
O maometismo, que pregava o islã ou a humildade e submissão, foi bem aceito por grande parte da população de Meca, entretanto a liderança de Maomé foi rejeitada pela maioria das tribos e Maomé se viu forçado a abandonar a cidade, em 622 d.C. e fugir para Yathrib, depois chamada Medina. Ali conviveu com judeus e cristãos, os quais ele chamava de “O Povo do Livro”, um termo usado para designar os não muçulmanos de religiões que possuíam uma Escritura revelada, chamada em árabe Al-Kitab, ou “o Livro” e “a Escritura”. Esses povos mencionados no Corão, são os judeus, os cristãos e os árabes.
Em Medina ele arregimentou um número significativo de seguidores, que lutavam ao seu lado. Por volta de 627 d.C., Maomé tinha unido toda Medina sob o Islã, com o desaparecimento dos seus inimigos internos. Os beduínos, após um período de batalhas e negociações, tornaram-se aliados de Maomé e aceitaram a sua religião. Em 630 d.C., depois de muitas batalhas, Maomé consegue assumir o domínio de Meca, destruindo os ídolos pagãos ainda ali existentes.
Devido à desentendimentos crescentes com os judeus, Maomé mudou a direção da oração dos muçulmanos de Jerusalém para Meca e legitimou a guerra contra os não-muçulmanos, o que levou à expulsão e extermínio de todos os judeus em Medina. Logo depois, Maomé rejeitou também os princípios cristãos que ele tinha no início aceito. Ele negou Jesus como sendo o filho de Deus, sua divindade e o conceito cristão da Trindade.(6) Alguns versos do Corão, que elogiavam os cristãos e os judeus, acima de todos os outros povos (Q.2: 62; Q.3: 55) foram depois alterados de modo a refletir sua nova posição política, como nos versos Q.9: 5; Q.4: 171 e Q.9: 31.
Até a sua morte, em 632 d.C., Maomé havia já se tornado o líder político e religioso mais poderoso da península árabe, tendo conseguido estabelecer alianças com a maioria das tribos nômades ali existentes. Ao se converter à sua doutrina, os adeptos se tornaram conhecidos como muçulmanos, ou seja, aqueles que se submetem a Deus.
Por vezes visto como um ramo separado do Islã, o sufismo é considerado uma forma de misticismo que pretende alcançar um contato direto com Deus através de uma série de práticas que geralmente incluem o ascetismo exterior, ou seja; a vida ascética do sufi em relação ao mundo e práticas místicas, como a meditação e a dança. O sufismo ganhou adeptos entre um grande número de muçulmanos como uma reação contra o materialismo do califado Umayyad (661-750 d.C.).
O islamismo possui várias concepções dos requisitos necessários para a salvação, porém basicamente é aceito que o homem é salvo pela fé em Deus e pelo cumprimento de seus ensinamentos, conforme o Corão.
O Deus do islamismo é um deus de justiça, mas não um Deus de amor. Ele está, “tão perto quanto a jugular” (Q.50:16), mas ao mesmo tempo tão distante que não se pode relacionar com ele. Ele é totalmente incognoscível e determina o destino dos homens, podendo ou não alterar essa determinação, segundo as obras de cada um, de modo que nenhum muçulmano tem certeza de sua salvação, inclusive o próprio Maomé.
Quando um muçulmano conhece a Cristo, e Ele lhe revela a verdadeira natureza do Pai, então são abertos os seus olhos e seus ouvidos espirituais, porque conhece o único e verdadeiro Deus. A grande diferença entre Deus e Allah é o Filho, isto é, Jesus Cristo, a perfeita manifestação de seu amor, de sua justiça e de sua graça. O muçulmano, como todos os homens, encontra em Cristo a sua redenção e a certeza de sua salvação.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. Bard, Mitchell G. The Complete Idiot's Guide to Middle East Conflict. 3rd Edition. NY: Alpha Books, 2005.
2. Shayesteh, Daniel. The Difference is The Son. Daniel Shayesteh, 2004.
3. Grypeou, Emmanouela. The Encounter of Eastern Christianity With Early Islam. Edited by Mark N. Swanson, David Thomas Emmanouela Grypeou. Brill Academic Publishers, 2006.
4.Conforme o site Answering Islam: “Ele [Maomé] dedicou-se, portanto, a transplantar em suas mentes [dos habitantes de Meca] algo do “conhecimento” das coisas religiosas que aqueles que habitavam nas nações mais desenvolvidas possuíam. Sua própria familiaridade com esse “conhecimento” era bastante limitada, e a oposição dos habitantes de Meca para sua doutrina fundamentalmente monoteísta emprestou um caráter denunciatório à maioria dos seus ensinamentos. Mas uma certa quantidade de ensinamentos positivos ele havia adquirido e promulgado no Corão, antes de sua migração para Medina. Para isso, ele havia atentado para aqueles que tinham sido monoteístas antes dele, i. e., para judeus e cristãos. É quase impossível decidir em detalhes se ele inspirou-se em fontes judaicas ou cristãs. Também não importa muito. Não parece que nos estágios iniciais ele tenha feito distinção entre eles. Toda religião era para ele revelada, e o conteúdo da revelação dada por um único Deus, deve ser também único. Em qualquer caso, ele tinha o hábito utilizar monoteístas anteriores como fonte de seu conhecimento, e ele naturalmente assumiu que eles concordariam com ele.” (Who Were the Hanifs? – http://www.answering-islam.org/Books/Bell/hanifs.htm)
5 Nasr, Seyyed Hossein. “Qur’an.” Encyclopædia Britannica Online. March 15, 2011. http://www.britannica.com/EBchecked/topic/487666/Quran.
6. Conforme mostra Daniel Shayesteh, em The Difference is the Son (pp. 132-136) o Corão é contraditório com relação aos ensinamentos sobre a divindade de Cristo. Isso se deve ao fato de Maomé haver inicialmente incorporado nele alguns princípios cristãos fora de seu contexto e mesclado estes princípios com outras fontes, arranjando-os no Corão de forma a diferenciar a sua mensagem do texto bíblico. Entretanto, a própria lógica do Corão não nega a divindade de Cristo, como demonstram os versos Q.3:45-47; Q.4:171b; Q.19:17 e Q.21:91. Entretanto, alguns versos acusam os cristãos de afirmar que Deus teve um relacionamento carnal com Maria de modo a gerar Jesus (Q.4:171c; Q.6:101 e Q.112:1-4); o que é um conceito desvirtuado da concepção virginal. Maomé admite a possibilidade de Deus gerar um filho no verso Q.39:4 do Corão, o que contradiz o seu ensinamento básico de que Deus é incognoscível e também a sua condenação dessa afirmação pelos judeus e cristãos, no verso Q.9:30).