"Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá da fé."(Romanos 1:17)
As exortações de Jesus e dos apóstolos sobre a vida cristã parecem indicar que é preciso nos esforçarmos para viver conforme o evangelho. A verdade entretanto é que,não raramente, nos defrontamos com a desagradável constatação de que deixamos de cumprir uma ou mais destas exortações em nossa vida diária.
Jesus nos recomendou que não andássemos ansiosos por coisa alguma (Lucas 12:22), mas às vezes nos surpreendemos engolindo os alimentos afoitamente, quando na verdade não há motivo algum para pressa ou perdendo noites de sono com preocupações.Disse ainda que amássemos os nossos inimigos (Mateus 5:44), mas a custo conseguimos suportar às vezes um irmão da própria fé. Alertou-nos também quanto à necessidade da castidade (Mateus 5:28), mas apesar de nosso esforço, muitas vezes caímos em tentação, ainda que por pensamentos ou pela cobiça.Paulo nos ensinou a obedecer às autoridades constituídas (Romanos 13:1), mas muitas vezes alimentamos sentimentos de rebeldia contra nosso patrão, contra o governo e mesmo contra o próprio pastor de nossa igreja. É Paulo que nos diz ainda que em todas as coisas somos mais que vencedores (Romanos 8:37), mas muitas vezes nos vemos em frangalhos, diante das tribulações e das lutas, com o coração cheio de dúvidas e temores!
Se ao nos convertermos e crermos pela fé na salvação, nascemos de novo e fomos novamente gerados espiritualmente como novas pessoas, a conduta cristã portanto não deveria ser algo espontâneo em nossa natureza?
A verdade é que a conduta cristã se torna espontânea na medida de nossa fé. O renascimento espiritual do cristão é imediato, uma vez que ele tenha sido convencido do pecado e decidido entregar sua vida a Cristo. Entretanto, a sua regeneração espiritual é um processo contínuo, que tem início com a entrada do Espírito Santo em seu íntimo. Este processo consiste na edificação de sua nova natureza e, ao mesmo tempo, na mortificação de sua antiga natureza.
A rapidez deste processo depende de nossa disposição em permitir que Deus realize a sua obra restauradora em nós. Essa disposição por sua vez é um reflexo de nossa fé, isto é, de nossa confiança nas promessas de Deus para as nossas vidas. Quanto mais conhecemos a Deus, mais aumenta a nossa fé e com maior empenho nos entregamos à sua graça.
Todos os crentes deveriam se apegar à sua profissão de fé sem vacilar. Entretanto, ao tentar fazer isto, o crente enfrenta muitas barreiras, e duas delas parecem ser particularmente difíceis de lidar. Primeiro, nosso destino eterno não pode ser visto com nossos olhos físicos. Sem algo material para ver ou tocar, a nossa natureza humana não está satisfeita e de vez em quando surgem dúvidas em nossa mente: "O céu realmente existe?"; "Estou deixando de aproveitar alguma coisa aqui na terra? "O escritor aos cristãos hebreus estava consciente de que estas e outras questões poderiam levar a dúvidas maiores, e em seguida, ao desânimo, e até mesmo fazer com que alguns viessem "recuar" (Hebreus 10:38-39).
Embora não possamos ver o céu literalmente, podemos vê-lo pela fé. Isto é possível apenas crendo na Palavra de Deus. Paulo disse que há um poder especial na Palavra de Deus que permite os crentes crescer "de fé em fé" (Romanos 1:17). O fato de que a própria fé é o combustível para gerar ainda mais fé é demonstrada pelo exemplo dos chamados “heróis da fé”: “Todos estes morreram na fé, sem terem recebido as promessas; mas vendo-as de longe, e crendo-as e abraçando-as, confessaram que eram estrangeiros e peregrinos na terra.” (Hebreus 11:13). Noé, Abraão, e outros tinham "visto" as promessas pela fé, o que os levou a crença ainda mais forte, até que foram profundamente convencidos. As promessas eventualmente foram tão reais para esses santos que "eles as abraçaram" como a uma amigo, durante a sua caminhada diária com o Senhor. Somente pela fé as promessas de Deus se tornam uma parte integrante da nossa vida, capaz de guiar nossas atividades diárias, os nosso planos e de nos transformar naquilo que realmente somos perante o Criador.
O segundo desafio que enfrentamos é o medo de represálias do mundo, de demonstrar a ousadia necessária para não se conformar com as suas práticas. Esse medo tem impedido muitos crentes de "confessar" a sua fé e esta é a razão pela qual, a etapa final da vida cristã, o "morrer na fé" pode ser tão difícil. Estar disposto a assumir publicamente a fé na Palavra é entretanto o que nos confere a segurança necessária para permitir que o Espírito atue sobre nossas vidas para completar a jornada de santificação que empreendemos.À medida que se fortalece a nossa nova natureza, as virtudes do Espírito de Deus vão se tornando mais e mais manifestas e portanto a nossa conduta se torna cada vez mais semelhante à conduta de Jesus.
Tentamos muitas vezes parecer virtuosos, quando na verdade não o somos, às vezes movidos por um senso de dever, outras vezes movidos por mera vaidade.Imitar a Cristo em nossa conduta não é em si um erro, pois esta é também uma maneira de aprendermos a ser realmente virtuosos (1Coríntios 11:1). O erro estar em acreditar ou tentar convencer os que nos cercam de que somos virtuosos quando na verdade não o somos.
É necessário portanto lembrar que somente poderemos produzir em nossas vidas o verdadeiro fruto do Espírito na medida em que passamos a viver segundo o Espírito e não segundo a carne. Para isso é preciso fortalecer a nossa fé, através da comunhão com Deus, para que nosso íntimo seja restaurado e possamos assim cada vez mais sermos transformados, à imagem e semelhança de Cristo.
"Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos." (Romanos 8:29)