Por Homero Chagas
O pastor Alejandro era o pastor de uma grande igreja em Cuba. Seu filho, Alejandro Nieto, era um jovem promissor e que amava a Jesus. No início da década de 1980, Deus colocou um desejo no coração daquele jovem de 22 anos, cheio de paixão, visão e amor pela obra de Deus: ver um dia Cuba inteira seguindo a Jesus Cristo. Ali nasce o lema “Cuba para Cristo” que serviu de base para todas as orações, planos e esforços do jovem pastor Alejandro.
Pouco tempo depois, Alejandro Nieto se casou com Álida e ambos se tornaram líderes de um movimento que promoveu uma verdadeira revolução cubana. E ela não foi política ou econômica, mas sim uma revolução nos corações de homens e mulheres que passaram a conhecer a Jesus.
No início de 1990, o Senhor começou a enviar renovação e restauração para a vida da Igreja cubana, e mesmo em meio ao sofrimento e à perseguição, diariamente centenas de pessoas vinham aos pés de Jesus.
Devido a esse crescimento e à grande quantidade de pessoas que se entregavam a cada culto, boa parte das igrejas que aderiram ao movimento de “Cuba para Cristo” tiveram que adotar o modelo de grupos familiares. O governo não permite até hoje a construção de novos templos e, por causa do grande crescimento, é que surgem as “casas-culto” que são igrejas nos lares. Ainda assim, todas devem ter permissão do governo para se reunirem e não podem passar de 12 pessoas por culto.
O crescimento da Igreja cubana, a partir daquele ano, foi tão grande, que em 2009, o pastor Alejandro declarou: “Em 1990, contávamos com 50 grupos somente em uma cidade. Atualmente, contamos com mais de 600 grupos. E especialmente nos últimos 10 anos nós temos experimentado um crescimento sem precedentes e sabemos que é apenas o começo do que Deus tem preparado para nós. Nossa meta é levar cada cubano aos pés de Jesus. Hoje nós suprimos mais de 3 mil pastores de 50 denominações diferentes, com material que nós mesmos produzimos, e fazemos isto gratuitamente”.
A PERSEGUIÇÃO
Só que a história desta família nem sempre foi de alegrias. Com a proeminência que aquele jovem pastor começou a ganhar, a perseguição por sua fé cresceu. Entre o início de seu ministério e o auge do crescimento da Igreja cubana, Alejandro e sua família sofreram diversas ameaças de prisão e morte, mas o golpe mais duro ocorreu em 1998. A irmã dele, a pastora Esther Nieto Cole, de 35 anos de idade, secretária da denominação em Havana, foi encontrada morta, estrangulada e violentada dentro de casa. Era um dia comum e Esther estava se arrumando para sair, homens invadiram a casa e a mataram. Seu marido, Julio Fernando, também líder na igreja e amigo de Alejandro, tinha saído para levar os filhos em um compromisso.
Na época, o pai dela, o pastor jubilado Alejandro Campos, com 75 anos de idade, declarou: “Minha filha partiu no esplendor de seu ministério, quando mais desejava expandir o evangelho nesta terra. A missão mais importante que Esther tinha no coração era seguir em frente ganhando Cuba para Cristo”.
As investigações duraram quase dois anos, mas cerca de um mês depois do assassinato, o esposo foi preso e declarou ter contratado um capanga para matar a esposa. No dia 21 de abril de 2000, ele foi declarado culpado e preso. Os familiares e amigos mais próximos nunca acreditaram nesta versão. Todos dizem que Julio assumiu a culpa sob ameaças de morte, que envolviam sua vida e a de parentes, incluindo a vida de Alejandro Nieto.
O intuito do governo e dos mandantes da morte de Esther era claro: desestabilizar a Igreja Liga Evangélica Cubana, desencorajar o pastor Alejandro e sua família e, principalmente, frear o crescimento do cristianismo em Cuba. Só que aconteceu o contrário. Cerca de 2 mil evangélicos compareceram ao enterro de Esther e houve um avivamento intenso.
Pouco tempo depois da condenação, o pastor Alejandro gravou um vídeo que foi divulgado no mundo todo em que ele disse: “O sonho de vermos Cuba para Cristo está cada vez mais próximo.”
Só que ele sabia que para isto acontecer, não seria nada fácil. E ainda declarou: “Isso nos custou lágrimas e sofrimento. Temos sofrido críticas e pressão para que desanimemos e paremos. Só que os cristãos são um povo feliz. Não estamos tristes e nem acomodados. Em nada nos sentimos derrotados. Ao contrário, estamos muito cheios de Deus, de ânimo e do Espírito Santo e prontos para seguir nesta obra que Deus nos outorgou neste país precioso em que Ele nos colocou”
De fato, a luta continuou. Em novembro de 2005, Alejandro apresentou corajosamente um documento ao governo mostrando sua indignação às restrições impostas às igrejas. Só que outro desafio ainda estava por vir. Em 2006, ele descobriu que estava com um câncer no sistema digestivo. Foram mais de três anos de dores, cirurgias e sessões de quimioterapia. Ele suportou durante todo esse tempo e procurou nunca deixar de servir ao Senhor.
No dia 25 de outubro de 2009, aos 49 anos de idade, o pastor Alejandro Nieto, presidente da Liga Evangélica de Cuba e um dos principais responsáveis pelo crescimento da Igreja cubana, faleceu, deixando na época Álida, sua esposa, e três filhos, Noel Alejandro, de 25 anos, Anel Alejandro, de 22 anos e Abdiel, de 21 anos.
ALIDA: ESPOSA FIEL E GUARDIÃ DA VISÃO
Durante os 27 anos de ministério do pastor Alejandro, sua esposa, Álida, não somente foi uma fiel companheira nos momentos de alegria e dificuldade, mas também exerceu um papel importantíssimo no crescimento do ministério e no avanço da Igreja cubana.
Após a morte do marido, Álida assumiu a presidência da Igreja Liga Evangélica de Cuba e passou a liderar todas as frentes de atuação do Ministério Vida Plena, como é conhecido o conjunto das atividades que vão além do trabalho da igreja local. “Deus nos deu grandes promessas e, a visão de alcançar Cuba para Cristo tem um preço. O Senhor tem me fortalecido. Deus deu a visão para nós dois e eu estou aqui para seguir com a missão. Planejamos seguir levantando igrejas e alcançando vidas até que Cuba para Cristo torne-se uma realidade” disse ela.
O propósito do ministério é equipar o Corpo de Cristo em Cuba e contribuir com a evangelização de cada cidadão do país, sempre respeitando as diferenças doutrinárias e estruturais de cada igreja.
Álida coordena atividades de treinamento e capacitação de pastores no país todo. Além disso, o ministério oferece materiais de todos os tipos para fortalecer a Igreja cubana, desde literatura cristã até cadeiras e itens para uso nas igrejas. Todos os anos, cerca de 3 mil pastores de 73 denominações diferentes são abençoados com o socorro oferecido pelo trabalho realizado por Álida e sua equipe.
Ela também lidera o trabalho de capacitação de mulheres, que tem gerado muitos frutos. Boa parte da liderança evangélica em Cuba, hoje, é composta por mulheres e, todos os anos o Ministério Vida Plena realiza uma conferência de liderança feminina onde centenas de pastoras, evangelistas, professoras nas igrejas etc., partem de diversas regiões do país para se encontrar em um determinado local e receberem materiais e treinamento.
Nas mãos dela está a liderança de cerca de 30 mil membros de sua denominação, em igrejas e casas-culto, espalhadas por todo o país. A criação dos três filhos, na fé do Senhor, também gerou frutos e, hoje, eles também têm papéis de liderança na Liga Evangélica de Cuba e coordenam diferentes ministérios, desde o louvor ao trabalho com jovens.
Talvez a fala de um dos filhos seja o maior marco da história desta família: “A presença física de Alejandro não mais estará entre nós, mas sua história e visão escritas por Deus em nossas mentes e nossos corações jamais poderão ser apagadas. Os servos que foram formados por ele e que se multiplicaram durante todos esses anos serão seguidores fiéis da obra que Deus começou em Cuba através dele. A Liga Evangélica de Cuba seguirá em frente lutando para tornar realidade os sonhos que Deus nos deu, firmes, com a vitória que já foi conquistada por Cristo no mundo: nossa fé”.
Álida e seus filhos necessitam de oração, assim como toda a Igreja em Cuba. Que a Igreja brasileira possa se colocar na brecha e continuar orando para que um dia, a verdadeira revolução aconteça e Cuba para Cristo, se torne realidade.
A VERDADEIRA REVOLUÇÃO CUBANA
A famosa Revolução Cubana ocorreu entre julho de 1953 e janeiro de 1959. Na época, o país vinha de um terrível histórico de violência e corrupção e tinha como presidente Fulgéncio Batista, que havia tomado o poder através de um golpe militar.
No começo de 1953, Fidel Castro e outros homens tentam realizar um primeiro golpe de Estado, mas falham. Pouco tempo depois, ele forma o “Exercito Rebelde e escolhe como um de seus comandantes um médico argentino, conhecido como Ernesto “Che” Guevara. Os guerrilheiros vão gradualmente se tornando populares e, com o apoio da população, tomam o poder.”
Com apoio militar e econômico dos soviéticos, Cuba começa a dar alguns passos em direção ao progresso, mas devido às ameaças de uma guerra nuclear, o governo americano bloqueia a ilha e impõe um embargo comercial que perdura até hoje. E, é em meio a esse contexto de tensão militar e de forte ideologia comunista, que a Igreja começa a sofrer perseguição no país.
Em 1976, o governo adotou uma constituição que dá o controle total do país ao Partido Comunista. A partir deste momento, os cristãos começaram a enfrentar diversas restrições, igrejas foram fechadas, líderes foram presos ou assassinados e a fé de muitos ficou abalada.
Nesta época, a “Portas Abertas com o Irmão André” como era conhecida a organização, já socorria os cristãos perseguidos por todo o mundo e o missionário holandês, Irmão André, decidiu visitar a América Latina para descobrir se havia uma Igreja Perseguida ali.
No início de 1980, André fez sua primeira viagem à Cuba, e relatou: “As igrejas têm plena liberdade para funcionamento em Cuba, desde que se restrinjam aos seus próprios edifícios e sigam uma escala de trabalhos aprovados pelo governo. Cultos ao ar livre, distribuição de literatura, e trabalhos nos lares são proibidos. Os pastores têm aparentemente liberdade de pregar o que querem, mas cuidadosamente evitam assuntos políticos. Há sempre possibilidade de que alguém do governo esteja presente, vigiando o que está sendo dito. Isto é típico da sutil pressão sobre a Igreja, que também Inclui uma restrição quanto às profissões que os jovens crentes podem abraçar.
Antigamente os crentes não podiam frequentar a universidade. Atualmente são impedidos de seguirem algumas carreiras, tais como medicina, magistério, advocacia e serviço social. Quando um cristão é recrutado pelo exército, ele é colocado nos serviços de mais baixo salário, como construção de estradas, agricultura, e outros serviços de nível inferior.”
Apesar de este retrato ser de 30 anos atrás, da mesma maneira que Cuba parou no tempo com o embargo econômico e com a falta de investimentos na infraestrutura, a situação ainda é a mesma. Ainda hoje, os cristãos são perseguidos, presos e até mortos. Em muitos lugares, as restrições diminuíram, mas, no geral, a Igreja cubana ainda é fortemente perseguida. O Irmão André diz: “Por favor, ore pelos crentes em Cuba que vivem a sua fé num clima hostil”.
Só que em meio a essa dura perseguição de mais de 30 anos, Deus plantou uma semente de avivamento que tem trazido frutos jamais imaginados.
Fonte: Revista Portas Abertas