Santa Fé de Ralito é tão pequena que nem aparece no mapa. Nesse pequeno distrito, ao norte da Colômbia, um grupo de brasileiros encontra experientes pastores e jovens seminaristas que mostram o preço de servir a Cristo nessa região isolada
O Jipe sacolejava com os buracos e valas da estrada de terra. As incessantes chuvas deixaram sulcos e poças no chão que desafiavam o avanço do velho veículo.
Da janela do carro, via-se a paisagem serena estender-se até o horizonte. Campos verdes e o gado não se diferenciavam muito do cenário rural brasileiro. Uma única torre de celular podia ser vista ao longe.
O movimento do veículo era a única coisa que amainava o calor úmido daquela estrada no interior ao norte da Colômbia. Dentro do jipe, entre malas e caixas de mantimentos, cinco viajantes brasileiros imaginavam o que os aguardava no distrito de Santa Fé de Ralito.
O PASTOR
Adiante do jipe, em uma moto emprestada, ia o pastor Medardo. Ele, em suma, era a razão daquele encontro. Com 34 anos de idade, o pastor Medardo está no ministério há 13 anos. Em 1997, quando expressou seu desejo de servir como pastor, foi convidado a abrir uma igreja em Quebrada Pailas, um distrito próximo de Ralito. Ele aceitou o desafio e ficou três anos trabalhando sozinho com a igreja recém-fundada.
Em 2001, Medardo se casou com Luzmari, que morava em Ralito, e um ano depois nascia André, o primogênito do casal.
Após três anos servindo na Igreja Cristã Peniel, em Ralito, a família foi para a grande cidade de Medellín, no Departamento de Antióquia, a 270 quilômetros de distância. Lá, Medardo se formou no seminário teológico, depois de dez anos atuando como pastor.
EM SANTA FÉ
O jipe com seus passageiros brasileiros parou. Haviam chegado em Ralito.
Ao redor do veículo estavam 16 rapazes, que descarre-garam o jipe assim que este estacionou. Eles estavam lá para ajudar os visitantes a vencer os últimos metros até a casa do pastor - um trajeto que incluía atravessar um rio e um pe¬queno bananal.
Os visitantes souberam então que os rapazes eram estu-dantes do instituto bíblico fundado pelo pastor Medardo havia dois anos, assim que chegara de Medellín e se estabelecera em Ralito.
O instituto, adjacente à casa do pastor, atualmente é uma pequena casa composta de uma cozinha, uma espaçosa área para refeições, um banheiro e quartos para os 17 internos (os 16 rapazes e mais uma moça).
Medardo criou o instituto a fim de treinar os jovens para que preguem, já que ele não pode mais fazer isso. O destaque que adquiriu em seu ministério fez de Medardo uma persona non grata em muitos distritos ao redor de Ralito.
Em 2001, o pastor recebeu uma carta de ameaça assinada pelo líder dos Águilas Negras, violento grupo paramilitar do município de Tierralta. A carta o ameaçava de morte por se recusar a colaborar com os paramilitares.
Medardo foi uma figura ativa na campanha de desarma-mento que aconteceu na região em 2004, oferecendo uma Bíblia aos paramilitares de Ralito que devolvessem suas armas ao governo. Ele se tornou carta marcada aos rebeldes que não participaram da campanha. Por causa disso, as viagens de oito horas que ele fazia para participar da programação de outras igrejas de sua denominação são, agora, arriscadas demais.
PACTO DE SILÊNCIO
Na passagem entre a cozinha e a área de refeições, os brasileiros dividiam a roda com sete líderes da Igreja Cristã Peniel de Tierralta.
Apesar de terem viajado uma média de duas horas para se encontrar com os brasileiros, o grupo de líder passou a maior parte do tempo em silêncio. Não estão acostumados a conversar sobre os problemas de violência que enfrentam.
Há uma espécie de pacto de silêncio entre eles. Impedidos de se comunicar entre si, já que a única antena de celular é propriedade desses rebeldes, que interceptam todas as ligações, eles são condenados a carregar sozinhos suas angústias.
Tampouco podem confiar nos membros de sua igreja. Segundo Medardo, há dois motivos para isso: "Os cristãos daqui não sabem guardar segredo", diz ele, explicando que a falta de discrição da igreja atraiu retaliações dos pa¬ramilitares no passado. O outro motivo é a presença de espiões nos cultos. Um dos pastores contou que uma feiticeira frequentava todos os cultos de sua igreja apenas para relatar posteriormente aos paramilitares o que o pastor pregava.
Os feiticeiros, aliás, são fortes aliados dos paramilitares. Com os antigos líderes presos ou extraditados, os atuais chefes rebeldes contratam bruxos e feiticeiros para terem mais poder por meio de pactos satânicos, e também para descobrir a fonte de algumas operações fracassadas. Após suas consultas, os bruxos sempre apontam a igreja como a responsável pelo fracasso.
Assim, a pressão que paira sobre a igreja não é imposta por proibições. A perseguição é velada. A presença de rebeldes armados nas estradas intimida os cristãos, que antes se animavam a cavalgar durante três horas para participar de um culto.
MAIS QUE DEZ SERMÕES
Sob uma lua encoberta por densas nuvens, o grupo de brasileiros ouvia o pastor Medardo contar sua história. A escuridão do quintal da casa do pastor era interrompida pelos intermitentes vaga-lumes e pela fraca luz da porta da cozinha. A voz baixa e grave do pastor acrescen¬tava um peso ao ar quente e parado da noite.
Medardo não esperava por aquele momento. Para ele, a visita dos brasileiros seria uma forma de encorajar os jovens do instituto e os pastores. Não ele. Mas só naquele momento o pastor se deu conta do peso que trazia no peito, sem ter com quem desabafar.
Oprimido, mas sempre obrigado a mostrar um sorriso encorajador aos seus alunos e ovelhas, Medardo vergava aos poucos com o peso das preocupações com a família e o ministério.
Além disso, zelava por sua própria segurança. Em março de 2010, um viajante levou até o pastor uma carta que en-contrara na estrada, endereçada a Medardo. Tratava-se de uma ameaça redigida por "EI diablito rojo", apelido do atual líder dos Aguilas Negras, filho do autor da primeira carta de ameaça dirigida a Medardo. Na carta, o líder paramilitar insulta os alunos do instituto e jura vir um dia para matá-Ios. "Quem os livrará nesses momentos? Deus não os ouve. Esperem por nós atentamente", lê-se em um trecho da carta.
Cinco meses depois, em 30 de agosto, três semanas an¬tes de os brasileiros chegarem a Ralito, as palavras de amea¬ça começaram a se realizar. Sob o forte sol das 15 horas, sete integrantes dos Aguilas Negras acercaram-se do irmão de Medardo e o obrigaram a caminhar com eles por sete horas. Sequestrado apenas por ser irmão de um pastor, o homem era acusado de colaborar com o AUC, grupo rival.
O sequestro do irmão de Medardo marcou uma campa¬nha de 30 dias de jejum na igreja. Nunca um sequestrado pelos Aguilas sobrevivia. Casos desses não podem nem ser relatado à polícia do distrito. Subornados pelos grupos para¬militares, os policiais relatam aos rebeldes as queixas regis¬tradas contra eles.
Ao final do terceiro dia, às 19 horas, os Aguilas deixaram o irmão do pastor em uma estrada, com vida. Após se encon-trarem, o pastor o levou até a cidade de Montería, capital do Departamento. Seu irmão vive lá com dificuldade, pois suas habilidades rurais não são tão úteis na cidade grande.
Ao final de seu relato, por volta da meia-noite, o grupo de brasileiros intercedeu por ele - a única forma de ajudá-Io prontamente.
Medardo se emocionou com aquele momento. Em lá-grimas, contou que, ao saber da visista do grupo a Ralito, pensou que os brasileiros seriam um enorme encorajamento para os alunos do instituto e para a igreja. Mas ali, depois de falar sobre suas aflições por cerca de três horas, Merardo percebeu que a visita seria para encorajá-Io tam¬bém. Ele precisava se abrir, e nada como um público dis¬posto a ouvi-Io com atenção.
Na manhã seguinte, após uma calorosa despedida da igreja e dos jovens do instituto, o grupo de viajantes regres¬sava ao Brasil, com as palavras do pastor Medardo ecoando em suas mentes: "Sua visita aqui valeu mais do que dez dos melhores sermãos"...
Fonte: Revista Portas Abertas